Dois casos registrados em 2026 chamam atenção para a infraestrutura elétrica das garagens e para os cuidados necessários antes da instalação de carregadores de carros elétricos
A presença de carros elétricos em condomínios já faz parte da realidade de muitos edifícios. Com isso, também cresce uma preocupação entre síndicos e administradoras: a infraestrutura das garagens está preparada para receber pontos de recarga?
Dois incêndios registrados em 2026 colocaram esse debate novamente em evidência. Em Campinas (SP), um carro elétrico pegou fogo em uma garagem de condomínio no fim de agosto. Meses antes, em Teresina (PI), um incêndio iniciado durante a recarga de um veículo atingiu outros automóveis e motocicletas, provocando prejuízo superior a R$ 1 milhão.
Os casos têm circunstâncias diferentes, mas levantam a mesma questão: como os condomínios devem se preparar para a chegada dos veículos elétricos?
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Carro elétrico pega fogo em garagem de condomínio em Campinas
Na noite de 31 de agosto, um carro elétrico pegou fogo no estacionamento do Condomínio Aldeia da Mata, na Rua Hermantino Coelho, em Campinas (SP).
O Corpo de Bombeiros foi acionado por volta das 20h15 e enviou duas viaturas ao local. O incêndio foi controlado e ninguém ficou ferido.
No entanto, é importante destacar que as causas do incêndio ainda não haviam sido determinadas. Também não havia confirmação sobre a marca ou o modelo do veículo, se ele estava conectado a um carregador no momento do fogo ou sobre a extensão dos danos aos demais veículos.
Por isso, o episódio não permite concluir que a recarga ou o sistema elétrico do condomínio tenha provocado o incêndio.
Ainda assim, o caso chama atenção para um desafio que síndicos precisam enfrentar: a adequação da infraestrutura elétrica dos condomínios para a recarga de veículos elétricos.
Outro incêndio atingiu cinco veículos durante recarga
Em março de 2026, outro caso trouxe consequências ainda maiores. Um carro elétrico estava conectado ao sistema de recarga de uma garagem de condomínio em Teresina (PI) quando um incêndio começou durante a madrugada.
O fogo atingiu cinco veículos: o próprio carro elétrico, uma Ford Ranger, um Corolla Cross e duas motocicletas. Outros dois automóveis, ambos Audi, também sofreram danos térmicos.
O prejuízo ultrapassou R$ 1 milhão. Apesar da dimensão do incêndio, ninguém ficou ferido.
Também nesse episódio, entretanto, é necessário separar fato de conclusão. A causa definitiva dependia de perícia. O veículo estava conectado ao carregador quando o fogo começou, mas essa circunstância, isoladamente, não comprova que a recarga tenha provocado o incêndio.
Quem pode responder pelos prejuízos?
A definição de responsabilidade em um incêndio desse tipo depende das causas identificadas pela perícia.
A análise pode envolver diferentes agentes, conforme o problema encontrado. Entre eles, aparecem o proprietário do veículo, o fabricante, o responsável pela instalação do carregador e o próprio condomínio.
Se houver defeito no veículo, por exemplo, a discussão pode envolver o fabricante. Caso a instalação do carregador apresente problemas, o responsável técnico ou instalador também pode entrar na apuração.
Já o condomínio pode enfrentar questionamentos caso fique demonstrada alguma falha relacionada à infraestrutura elétrica, à autorização ou à forma como a instalação foi realizada e mantida.
Por isso, a recarga de veículos elétricos não deve funcionar por meio de improvisos ou adaptações sem avaliação técnica.
A garagem do condomínio está preparada para receber carregadores de carros elétricos?
Esse é um dos principais pontos de atenção para síndicos.
Garagens projetadas há anos nem sempre consideraram a instalação de diversos carregadores de carros elétricos. A chegada de vários equipamentos pode representar uma carga adicional significativa para a infraestrutura elétrica do condomínio.
Por isso, antes de autorizar novas instalações, o condomínio precisa avaliar a capacidade disponível e verificar quais adequações podem ser necessárias.
Além disso, a instalação de um carregador não deve partir simplesmente da decisão individual de um morador. Como a infraestrutura elétrica e as áreas envolvidas podem integrar as áreas comuns, o condomínio precisa estabelecer critérios para a instalação e utilização desses equipamentos.
O que a NBR 17019 estabelece para pontos de recarga?
A ABNT NBR 17019 estabelece requisitos relacionados às instalações elétricas de baixa tensão para alimentação e recarga de veículos elétricos.
Entre os cuidados destacados no material estão a utilização de circuito exclusivo para cada ponto de recarga, aterramento e dispositivo diferencial residual (DR).
A instalação também exige avaliação e responsabilidade técnica adequada. No contexto apresentado, a orientação envolve a participação de engenheiro e a emissão de ART (Anotação de Responsabilidade Técnica).
Dessa forma, a instalação de um carregador de veículo elétrico precisa considerar tanto as características do equipamento quanto a capacidade da infraestrutura existente.
Por que a instalação improvisada preocupa?
Uma das situações que mais merece atenção envolve o uso de extensões, tomadas comuns ou adaptações improvisadas para carregar veículos elétricos na garagem.
Esse tipo de solução pode colocar uma carga elevada sobre uma instalação que não recebeu dimensionamento para essa finalidade.
Além disso, quando o condomínio permite ou tolera uma instalação sem avaliação adequada, a situação pode gerar questionamentos caso ocorra um acidente.
Por isso, gambiarras na recarga de veículos elétricos não devem fazer parte da rotina condominial.
O que o síndico deve fazer antes de liberar um carregador?
A chegada de um veículo elétrico ao condomínio exige planejamento. O primeiro passo consiste em identificar quantos moradores já possuem esses veículos e quantos pretendem instalar carregadores.
Depois, o condomínio pode contratar um engenheiro eletricista para avaliar a infraestrutura existente. A análise deve considerar a capacidade do quadro elétrico, a demanda atual e a possibilidade de instalação de novos pontos de recarga.
Com essas informações, a administração consegue apresentar um cenário mais claro aos moradores e levar a discussão para os canais adequados do condomínio.
Também vale estabelecer regras sobre:
- quem paga pela adequação da infraestrutura;
- quem arca com a instalação do carregador;
- como será feita a medição da energia consumida;
- quem ficará responsável pela manutenção do equipamento;
- quais profissionais poderão realizar a instalação;
- quais documentos e responsabilidades técnicas deverão acompanhar o serviço.
Regras internas ajudam a organizar a recarga
Além da avaliação técnica, o condomínio precisa definir como os carregadores serão incorporados à rotina das garagens.
A regulamentação interna pode estabelecer critérios para autorização, instalação, manutenção e utilização dos pontos de recarga. Dessa forma, todos os moradores ficam submetidos às mesmas condições.
Esse cuidado também evita que cada proprietário faça uma adaptação individual sem considerar os impactos sobre a infraestrutura coletiva.
Seguro e prevenção também entram na discussão
Outro ponto que merece atenção envolve o seguro do condomínio.
A existência de pontos de recarga de veículos elétricos deve ser comunicada à seguradora para que o condomínio conheça as condições da apólice e eventuais exigências relacionadas à instalação.
Além disso, o síndico precisa verificar periodicamente as condições dos equipamentos de prevenção e combate a incêndio da garagem.
Extintores dentro da validade, sinalização adequada, rotas de fuga desobstruídas e manutenção dos sistemas de segurança continuam fundamentais.
A chegada dos veículos elétricos acrescenta uma nova preocupação, mas não substitui os cuidados que o condomínio já precisa manter em relação à prevenção de incêndios.
Carros elétricos exigem planejamento dos condomínios
Os dois incêndios registrados em 2026 mostram por que a discussão sobre carregadores de carros elétricos em condomínios precisa acompanhar o crescimento desse tipo de veículo.
No caso de Campinas, ainda não havia uma causa determinada para o incêndio. Em Teresina, o veículo estava conectado ao sistema de recarga quando o fogo começou, mas a circunstância, por si só, também não permite atribuir a origem do incêndio ao carregador ou ao veículo.
Por isso, mais do que apontar culpados antes de uma perícia, os casos reforçam a importância da prevenção, da avaliação da infraestrutura elétrica e da responsabilidade técnica.
Para síndicos e administradoras, o momento exige antecipação. Avaliar a capacidade elétrica do condomínio, estabelecer regras claras, evitar instalações improvisadas e manter os sistemas de segurança em dia ajudam a preparar as edificações para uma realidade que já chegou às garagens.
Os carros elétricos podem mudar a forma como os condomínios utilizam sua infraestrutura. A preparação precisa acompanhar essa mudança.
