O expediente terminou. O síndico fechou o computador, deixou o celular de lado e tentou descansar.

Mesmo assim, a reclamação do morador, o problema no portão, a obra atrasada e a próxima assembleia continuam ocupando seus pensamentos.

Para muitos síndicos, o trabalho não termina quando o atendimento acaba. Ele continua na mente, invade o descanso e, aos poucos, afeta o sono, o humor, as relações pessoais e a saúde.

Durante o Setembro Amarelo, mês dedicado à conscientização sobre a preservação da vida, essa realidade foi observada com mais atenção.

Como escola que trabalha pelo desenvolvimento e pela qualidade de vida dos síndicos, foi realizada uma pesquisa. O objetivo foi conhecer não apenas a gestão, mas também a pessoa que existe por trás dela.

Muito se fala sobre segurança, finanças, manutenção, conflitos e assembleias. No entanto, ainda se fala pouco sobre quem carrega a responsabilidade de organizar tudo isso: o síndico.

Entre as pessoas que responderam ao levantamento, 1.020 responderam à pergunta sobre demandas fora do horário de trabalho. Desse total, 29,6% disseram que isso acontece frequentemente. Além disso, 12,1% responderam sempre.

Somadas, essas duas respostas representam 41,7% dos participantes.

O impacto da gestão condominial na saúde mental do síndico

Quando foi perguntado se situações relacionadas aos condomínios continuaram ocupando os pensamentos durante os momentos de descanso, foram obtidas 1.013 respostas.

Nesse caso, 39,4% responderam frequentemente. Outros 18,9% disseram sempre. Juntas, essas respostas representam 58,2% dos participantes.

Esses números confirmaram algo que é observado diariamente ao acompanhar síndicos de diferentes estados e níveis de maturidade profissional: a exaustão física e emocional atravessa praticamente todos os perfis.

Ser síndico exige capacidade para lidar com pressão, conflitos e imprevistos. Porém, quando a disponibilidade se torna permanente e a mente nunca descansa, o trabalho começa a ocupar um espaço que não deveria ocupar.

Ao analisar os resultados da pesquisa, algumas reflexões surgiram. Além disso, serão apresentadas ações práticas que podem ajudar a construir uma rotina mais saudável, sem que a responsabilidade com o condomínio seja abandonada.

1. A normalização do trabalho após o trabalho

Em um primeiro momento, para quem vive a sindicatura, isso pode parecer algo “normal”.

No entanto, no meu entendimento, o excesso nunca pode ser normalizado.

Isso é, inclusive, algo sobre o qual tenho me policiado nas últimas semanas. O excesso foi percebido depois que múltiplas funções foram assumidas ao longo dos últimos anos.

Será que não estamos normalizando algo que claramente pode gerar adoecimento?

A disponibilidade excessiva, as cobranças e as exigências desproporcionais estão sendo normalizadas. Mas em busca de quê?

Reconhecimento? Desejo de agradar aos outros? Necessidade de provar que somos bons o suficiente?

Não acredito que exista uma resposta única. Da mesma forma, não acredito que haja uma resposta certa ou errada.

Acredito que cada síndico precisa encontrar dentro de si os motivos pelos quais permitiu que seus limites fossem ultrapassados. Afinal, a paz e o descanso podem acabar sendo perdidos por causa dos condomínios. 

2. Os atendimentos fora do expediente são realmente necessários?

Sabemos que o síndico não possui uma carga horária de trabalho preestabelecida.

A verdade é que o síndico não é funcionário. Isso traz ônus e bônus.

Por mais que não sejamos máquinas — acredite, não somos — e não tenhamos a obrigação de atender 24 horas por dia, respondemos pelo condomínio durante essas mesmas 24 horas.

Isso acontece estando presentes ou não. Também acontece estando perto ou longe, morando ou não no empreendimento.

Então surge a pergunta: se o síndico responde pelo condomínio 24 horas por dia, o atendimento também é obrigatório durante as 24 horas?

A resposta é não.

Ser responsável pelo condomínio não significa ser escravo dele.

Em toda organização, é necessário que existam regras, limites, acordos e respeito mútuo. Na relação entre síndico e condomínio, não é diferente.

O primeiro limite que deve existir é a diferenciação clara entre EMERGÊNCIA e URGÊNCIA.

Nesse ponto, entendo que cabe ao síndico estar disponível para as emergências. Essa disponibilidade pode ser física ou não. Dessa forma, os direcionamentos necessários podem ser dados e as pessoas adequadas podem ser acionadas para realizar o atendimento.

Ocorre que muitos síndicos não possuem clareza sobre essa limitação. Por isso, acabam aceitando o caos.

Se esse é o seu caso, aqui estão alguns ensinamentos já validados na prática. 

Emergências

Emergências são situações como incêndios, vazamentos de água em grande escala e acidentes. Também são consideradas emergências outras ocorrências que colocam vidas, pessoas ou o patrimônio em risco.

Nesses casos, o condomínio deve saber que você pode e deve ser acionado.

Quando uma emergência acontecer, você precisa saber como agir. Além disso, a equipe local do condomínio, os moradores ou, pelo menos, um grupo deles também precisam receber esse treinamento.

Lembra que você não é uma máquina?

Pois bem. Em um momento como esse, pode acontecer de você não estar disponível. Por isso, é necessário que o condomínio também saiba como agir.

Urgências

Aqui existe uma interpretação mais cuidadosa: o que é uma urgência? Para quem determinada situação é urgente?

Há moradores que consideram urgente receber, em uma sexta-feira, às 21 horas, uma resposta imediata pelo WhatsApp sobre como reservar o salão de festas para a próxima sexta-feira.

Mas, para o síndico que trabalhou exaustivamente durante a semana inteira e está assistindo a um filme com a família, aproveitando seu merecido descanso, dar essa resposta naquele momento não chega nem perto de ser uma urgência.

Portanto, é necessário ter cautela para não se render às pressões imediatistas externas a todo momento.

Muitas vezes, essa urgência externa pode transformar a sua vida em um eterno pronto-socorro. Nesse cenário, você sempre atende aos outros, enquanto esquece as suas próprias urgências e necessidades. 

Ações para estabelecer limites e preservar o descanso do síndico

Para que limites sejam estabelecidos e o descanso seja preservado, algumas ações podem ser adotadas:

  • Envie mensagens e explicações claras sobre o que são emergências e urgências.
  • Informe claramente o horário de atendimento e os procedimentos de contato fora do horário estipulado.
  • Explique que, para determinadas situações extremas, existem órgãos competentes, como Polícia, Corpo de Bombeiros e SAMU.
  • Oriente onde podem encontrar as informações sobre a rotina do condomínio a qualquer momento, como segunda via de boleto, reservas de espaços, regras, cadastro de visitantes, entre outras.
  • Se houver equipe de portaria, treine-a para ações de contingência. Entre elas estão ocorrências de barulho, problemas de segurança nos acessos, defeitos em portas e portões, vazamentos, falta de água, princípios de incêndio, pessoas presas no elevador, brigas, vendavais e outras situações.
  • Se não houver equipe de portaria, mantenha os condôminos informados sobre esses temas. Para alguns casos, grave vídeos em formato de tutorial. Depois, disponibilize-os por meio de QR Code ao lado de cada sistema ou equipamento.
  • No quadro de avisos, em local visível para todos, coloque uma lista de telefones úteis. Nessa lista, reúna os contatos dos principais fornecedores que poderão atender o condomínio em uma emergência, caso haja alguma falha de comunicação com você.

Como colocar limites na rotina do condomínio

Essas ações podem parecer simples. Porém, se colocados realmente em prática, podem gerar grandes resultados e mais tranquilidade para a sua rotina.

Mesmo que, no início, pareça que não está surtindo efeito, é com o tempo e a conscientização que os frutos começam a aparecer.

É importante lembrar que essas ações buscam mudar uma cultura e uma mentalidade. Por isso, nada disso acontece da noite para o dia.

A questão é: o que você escolhe? Começar a agir agora para colher os frutos em breve ou permanecer como está, sem nenhuma perspectiva de mudança? 

3. Por que os condomínios continuam ocupando os pensamentos durante o descanso do síndico?

A resposta para essa pergunta tem mais a ver com o comportamento do síndico do que com o condomínio.

Por muito tempo, falou-se sobre separar a vida pessoal da vida profissional. Hoje, temos maturidade suficiente para entender que não temos duas vidas.

Temos uma única vida, dividida entre os diferentes papéis que desempenhamos na sociedade. Por isso, não é tão simples separar as emoções de um papel das emoções dos demais.

De certo modo, é compreensível que, ao chegarmos em casa, os problemas do condomínio, ou dos condomínios, ainda visitem a nossa mente.

Como consequência, podemos ficar irritados, pensativos ou em estado de alerta.

O problema aparece quando isso se torna constante. Nesse sentido, o descanso nunca encontra espaço.

Além disso, a exaustão mental, que considero ainda pior do que a física, abre brechas para o adoecimento.

Portanto, é o seu comportamento diante da vida e os limites que você não está disposto a ultrapassar que vão definir o quanto você conseguirá se manter saudável diante das pressões condominiais. 

Decisões que podem reduzir o impacto mental da rotina

Algumas decisões que ajudam a reduzir o impacto mental da rotina de síndico.

  • Transforme em rotina aquilo que faz bem e fortalece o seu estado psicológico. Por exemplo, acorde e tome um bom café da manhã sem responder mensagens no WhatsApp.
  • Tenha momentos para desacelerar durante o dia de trabalho. Um almoço de qualidade, uma pausa para o café da tarde e outros pequenos intervalos podem ser incluídos na rotina.
  • Descentralize a operação. Não queira fazer tudo sozinho. Tenha uma equipe e forme uma rede de apoio com fornecedores.
  • Organize as informações da sua gestão. Não guarde tudo na mente e não use o WhatsApp como sistema de gestão, porque ele não é.
  • Organize suas demandas e responsabilidades em um sistema que permita criar cronogramas de trabalho. Dessa forma, se reduz a ansiedade.
  • Torne a sua casa um lar. Esse é o seu ambiente restaurador e, por isso, precisa estar organizado e abastecido de paz, harmonia e amor.
  • Quando você chegar em casa, o próprio ambiente deve lembrá-lo de que é hora de relaxar.
  • Organize a sua rotina e respeite o seu horário de trabalho.

Organização da rotina do síndico e apoio na gestão condominial

Acredite: o trabalho nunca acaba. Se você trabalhar todos os dias até as 22 horas, sempre haverá alguma coisa capaz de mantê-lo trabalhando até as 23 horas.

Mas a qualidade de vida do síndico também é reflexo da organização da sua rotina e do respeito que ele dedica aos próprios limites.

Organizar as demandas, comunicar horários, preparar a equipe e criar procedimentos para situações de emergência não diminuem o compromisso com o condomínio.

Pelo contrário, essas ações tornam a gestão mais segura. Além disso, evita-se que toda a operação dependa da disponibilidade permanente de uma única pessoa.

Um síndico exausto pode continuar entregando por algum tempo. Entretanto, dificilmente conseguirá manter a mesma clareza, equilíbrio e capacidade de decisão por muitos anos.

Se o expediente termina, mas o condomínio continua ocupando a sua mente, talvez seja o momento de observar o que precisa mudar na sua forma de trabalhar.

Essa mudança não precisa acontecer de uma vez.

Por exemplo, ela pode começar com um horário respeitado, uma demanda delegada, uma mensagem respondida no momento adequado ou uma emergência para a qual outras pessoas também foram preparadas.

O condomínio precisa da sua responsabilidade. Porém, a sua vida também precisa da sua presença.

Por fim, valorize a sua carreira, preserve a sua saúde e permita que, ao final do expediente, você também possa descansar.

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Letícia Duarte | Síndica Profissional