Os condomínios são pequenas amostras da sociedade. Neles, vemos comportamentos como a omissão coletiva diante de irregularidades. Assim como parte do povo aceita gestores públicos desonestos, muitos condôminos fecham os olhos para síndicos que se apoderam de recursos. Surge, então, a lógica perigosa do “ele rouba, mas faz”, aplicada também ao universo condominial.
Esse cenário revela a corrosão de valores como ética, hierarquia e equilíbrio. A prova mais clara é a baixa participação em assembleias, onde frequentemente nem há quórum para destituir síndicos que agem de forma irregular.
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Pertencimento, hierarquia e equilíbrio
A filosofia sistêmica nos lembra que todo empreendimento tem sua história e que cada proprietário faz parte de um todo. Reconhecer o pertencimento e respeitar a hierarquia é essencial para manter o equilíbrio entre dar e receber. No entanto, relações antigas e funcionários que se sentem donos do espaço podem distorcer essa dinâmica.
Síndicos profissionais que permanecem desde a fundação de um edifício muitas vezes adquirem legitimidade quase intocável. Esse poder acumulado, quando não fiscalizado, abre brechas para abusos de confiança. A omissão dos condôminos, nesse contexto, fortalece práticas nocivas e normaliza o que deveria causar estranhamento imediato: decisões unilaterais, contratos mal explicados e prestações de contas superficiais.
O papel da assembleia
A visão sistêmica ensina que cada parte deve cumprir sua função. O síndico, gerir; o conselho, fiscalizar; e os condôminos, participar. Quando todos exercem seus papéis, o condomínio se fortalece. Já a omissão cria espaço para apropriações indevidas e abusos de autoridade.
A apropriação de valores só acontece porque falta vigilância. A assembleia é a união dos condôminos e deve funcionar como espaço de deliberação, aprovação e rejeição. Não é papel do síndico decidir sozinho; a coletividade precisa assumir responsabilidades, estabelecer prioridades e controlar prazos de execução.
A seguir, algumas medidas simples e contínuas ajudam a virar a chave:
- Calendário anual de assembleias e prestações de contas, com documentos disponibilizados previamente.
- Segregação de funções: quem contrata não paga, quem paga não confere, e quem confere não decide sozinho.
- Conselho fiscal ativo e, quando couber, auditoria independente.
- Portal de transparência com notas, extratos e contratos; acesso a todos os condôminos.
- Rodízio e comparação de fornecedores, com critérios objetivos e registro das cotações.
- Formação de comitês temáticos (obras, compras, compliance) com moradores voluntários.
Responsabilidade compartilhada
Por fim, o ditado se aplica: “síndico só se apodera do que não é vigiado”. Se no âmbito público devemos ser cidadãos atentos, no privado também é fundamental agir como condôminos conscientes. Fiscalizar e eleger bons gestores não basta; é preciso acompanhar a execução, aprovar contas com critério e questionar sempre que houver dúvidas.
Nesse sentido, a omissão tem preço alto! Por isso, a postura vigilante e participativa de cada morador é o caminho para resgatar a ética, equilíbrio e confiança na vida condominial.
Gracilia Amorim Portela | Advogada Pres. da Academia Brasileira de Filosofia Sistêmica
