O investimento em tecnologia de segurança nunca foi tão alto nos condomínios brasileiros. Reconhecimento facial, câmeras inteligentes, gravação de áudio, monitoramento remoto e inteligência artificial passaram a integrar a rotina de milhares de empreendimentos.

Ao mesmo tempo em que esses recursos ampliam a proteção patrimonial e auxiliam na identificação de ocorrências, surgem dúvidas importantes sobre privacidade, acesso às imagens e limites legais do monitoramento.

Afinal, até onde um condomínio pode instalar câmeras? É permitido filmar corredores e portas de apartamentos? Quem pode acessar as gravações? E a tecnologia realmente previne ocorrências ou apenas ajuda a investigá-las depois?

Esses temas foram debatidos pelo síndico profissional Ricardo Montu durante participação no programa Condomínio & Soluções. Segundo ele, a tecnologia é uma importante aliada da gestão condominial, mas precisa ser utilizada com planejamento e responsabilidade.

Mais câmeras significam mais segurança?

Para Ricardo Montu, o monitoramento por câmeras continua sendo uma das ferramentas mais eficientes para auxiliar na segurança dos condomínios.

Segundo ele, quanto maior a cobertura das áreas comuns, maior a capacidade de identificar infrações, ocorrências e situações de risco. “Quanto maior a quantidade de câmeras, maior a segurança e a facilidade para identificar qualquer problema, seja uma infração, um dano ao patrimônio ou até mesmo um crime”, destaca.

No entanto, o especialista alerta que a discussão não deve se concentrar apenas na gravação das imagens, mas principalmente na forma como elas são utilizadas e armazenadas.

O maior erro na questão de segurança

Um dos pontos mais relevantes abordados por Montu envolve uma expectativa equivocada muito comum entre moradores.

Muitas pessoas acreditam que existe alguém monitorando continuamente todas as câmeras instaladas no condomínio. Na prática, essa realidade raramente existe.

Em empreendimentos de grande porte, é comum encontrar sistemas com centenas de câmeras distribuídas por garagens, elevadores, acessos, muros e áreas de lazer.

“Não é porque o condomínio possui 150 ou 400 câmeras que haverá alguém observando todas elas o tempo inteiro. Isso seria operacionalmente inviável e extremamente caro”, explica.

Segundo ele, a maior parte dos sistemas atua de forma reativa, ou seja, as imagens são consultadas após a ocorrência de um fato, servindo como ferramenta de investigação e comprovação.

Inteligência artificial já começa a mudar esse cenário

A evolução da inteligência artificial vem trazendo novas possibilidades para a segurança condominial.

Hoje já existem sistemas capazes de identificar comportamentos considerados suspeitos e emitir alertas automáticos para a equipe de monitoramento.

Apesar dos avanços, Montu lembra que essa tecnologia ainda possui custos elevados para muitos condomínios. “Já existem recursos que identificam movimentações incomuns e comportamentos inadequados. É uma tendência que veio para ficar, mas ainda possui um custo significativo para muitos empreendimentos”, afirma.

Até onde vai a privacidade dos moradores?

A instalação de câmeras em áreas comuns costuma gerar questionamentos frequentes entre os moradores.

De acordo com Ricardo Montu, a gravação de corredores, elevadores, acessos, garagens e áreas de circulação é plenamente possível quando aprovada pelo condomínio e destinada à proteção coletiva. Por outro lado, existem espaços que exigem maior cautela.

Avaliar com atenção para evitar constrangimentos e possíveis conflitos relacionados à privacidade áreas como piscinas, vestiários, saunas, espaços de troca de roupas e ambientes que exponham a intimidade dos moradores.

Segundo Montu, o segredo está no posicionamento estratégico dos equipamentos, focando nos acessos e não diretamente nas pessoas.

Quem pode acessar as imagens?

Outra dúvida recorrente envolve o acesso às gravações. Segundo o síndico profissional, nem toda solicitação feita por moradores deve resultar na entrega imediata das imagens.

Deve-se analisar cada situação individualmente, considerando aspectos de privacidade, interesse coletivo e eventual necessidade de preservação de provas.

Em muitos casos, o acesso pode depender de justificativa adequada ou até de determinação judicial, especialmente quando as imagens envolvem terceiros ou podem gerar conflitos futuros.

Segurança é tecnologia, mas também é gestão

Apesar do avanço dos equipamentos, Ricardo Montu ressalta que a tecnologia sozinha não resolve todos os problemas.

Para ele, a segurança eficiente depende da combinação entre:

  • Equipamentos adequados;
  • Procedimentos claros;
  • Treinamento das equipes;
  • Participação dos moradores;
  • Gestão responsável das informações.

“O problema não está na gravação. O desafio é saber utilizar essas imagens de forma correta, equilibrando segurança e privacidade”, conclui.

O futuro da segurança condominial

Com a popularização da inteligência artificial, do reconhecimento facial e dos sistemas integrados de monitoramento, os condomínios caminham para uma gestão cada vez mais tecnológica.

No entanto, o debate sobre privacidade continuará acompanhando essa evolução. Mais do que instalar equipamentos, os especialistas defendem a criação de políticas claras para uso das imagens, definição de acessos e conscientização dos moradores.

Afinal, a tecnologia pode ampliar a segurança, mas somente quando utilizada com planejamento, transparência e respeito aos direitos de todos.

Lanume Weiss
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